Recentemente eu tive que ler um livro (e aqui o verbo ter é
completamente apropriado já que não foi uma escolha pessoal) para preparar meu
aluno para uma prova. “Úrsula” de Maria Firmina dos Reis, foi a obra escolhida
pela comissão do CEFET MG para a prova de ingresso no curso técnico do Ensino
Médio. Não é a primeira vez que tenho que ler um livro para preparar alunos
para essa prova. E também não é a primeira vez que me surpreendo com essas
escolhas de títulos.
“Úrsula” ficou esquecido na história da literatura
romântica. Escrito por uma mulher negra em plena época da escravidão, sua
narração traz elementos pioneiros, antes mesmo de Castro Alves, sobre a
população negra, a crítica a escravidão e também escancara para os leitores as
diversas maldades dos senhores de escravos (e também dos homens com as mulheres
ao seu redor).
Sobre a obra: “Úrsula” conta um romance entre a protagonista
que dá nome ao livro e Tancredo, filho de um homem rico e importante da cidade. Certo dia, Tancredo estava andando à cavalo de forma distraída, o cavalo acaba
por tropeçar numa pedra e eles caem. Tancredo é salvo por Túlio, homem negro,
escravizado e com um excelente coração e bondade. Aqui já vemos o pioneirismo
de Maria Firmina em humanizar os negros e coloca-los como figuras gentis.
Túlio não esperava nada de Tancredo, o ajuda simplesmente
porque é essa a obrigação de todos os humanos, mas encontra nele um amigo e
futuramente consegue sua alforria.
O escravizado leva Tancredo a casa de sua senhora (Luiza B.)
para que ele seja cuidado, lá, este se apaixonada à primeira vista por Úrsula e
a pede em casamento.
Ao longo da história, alguns segredos são revelados como,
por exemplo, que o pai de Tancredo roubou a antiga noiva do filho, além disso,
maltratava e humilhava a mãe dele constantemente (e aqui vemos outro
pioneirismo de Úrsula ao denunciar o patriarcado). Luiza B é irmã do Comendador
Fernando P. homem poderoso, sem coração, egoísta e mesquinho que maltrata seus
escravos por sadismo, rechaçou sua irmã durante anos, apenas por ela ter casado
com o homem que amava.
Atenção!!!
A partir daqui tem spoilers (não digam que eu não avisei, hein?)
A trama começa a tomar outros rumos quando o tio de Úrsula,
Fernando P, se apaixona pela sobrinha. Ao perceber que a menina tem total
desprezo por ele, até mesmo a ameaça de estupro e promete que, se Úrsula não
for dele, não será de mais ninguém.
Por mais que Tancredo tente salvar sua amada, por mais que o
casamento seja consolidado, Fernando não aceita ser desprezado pela jovem e
mata seu amado.
A culpa o consome nos capítulos finais do livro,
principalmente porque ele foi o responsável pelo enlouquecimento de Úrsula,
assim, ele percebe que a doce sobrinha agora está desgraçada e sem sanidade e
dessa forma Úrsula nunca será dele.
No final do romance, Úrsula morre, Fernando P tenta levar uma vida de retidão cristã, pela descrição de sua morte dá a entender que sua alma foi salva, seu olhar parecia brando.
Confesso que fiquei muito triste pelo destino de Úrsula e
Tancredo, até porque a protagonista sofreu durante boa parte da vida. Seu destino
era cuidar da mãe doente e ficar só, sua solidão era tanta que chega a sentir
inveja de Túlio, pois este podia pelo menos sair de casa.
Diferente de outros livros do mesmo período literário que
li, Úrsula não tem um final feliz, tal qual sua autora: Maria Firmina morre
pobre e cega, tem seu romance principal invisibilizado por anos sendo resgatado
somente agora por estudiosos da literatura afro-brasileira.
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Meu Deus que história cruel e triste. De fato ficamos esperando um final feliz e ele não vem nunca. É o patriarcado na sua forma mais pura, homens simplesmente se acham os donos das mulheres, quem decide com quem elas ficam, como elas devem viver e até se elas devem viver ou não. Tem que ter muita força pra conseguir ler uma história assim, é muito pesado mesmo, mas é infelizmente uma realidade que não mudou nada. No fim ele não conseguiu ficar com a mulher que ele queria da mesma forma, mas ainda assim se achou no direito de destruir a vida dela completamente. Nunca sequer pensou nisso. Sobre o post e o blog: está tudo maravilhoso, escreveu super bem, me deixou com vontade de ler o livro mesmo sendo uma história tão triste. As pessoas não sabem reconhecer os verdadeiros talentos e muito menos dar valor ao que realmente merece, e por isso mal vemos blogs hoje, muito triste. Mas por favor continue, continue presenteando o mundo com seus textos maravilhosos que com certeza incentivam pessoas a querer ler, mesmo aqueles que não gostam nem um pouco de ler. Parabéns <3 ansiosa pelo próximo post!
ResponderExcluirPoxa, eu fico feliz em saber que você gostou e sentiu vontade de ler. Meu aluno do ano passado também gostou muito da história, mesmo sendo com uma linguagem do século XIX, incentivar a leitura é o meu maior prazer. Maria Firmina é um presente para a literatura que felizmente está sendo reconhecida agora.
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