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Bartleby - o escrivão, ou como meu trabalho mer@#$ me enlouqueceu


                                                    Capa da edição que li


O bom de ser professora particular de Literatura e que, por vezes, me aparecem demandas que exigem leituras de livros que possivelmente não estariam na minha lista imediata. O da vez foi "Bartleby - o escrivão".

Bartleby é um conto de Hernan Melville (1819-1891), mais famoso pelo livro Moby Dick

    A história é  narrada em primeira pessoa pelo patrão de Bartleby que nos conta como conheceu o personagem que dá nome a obra. Inicialmente, o chefe nos apresente seus outros funcionários: Turkey, Nippers e Ginger Bread. Os dois primeiros só trabalham meio período, Turkey pela manhã, pois à tarde se encontra bêbado e ineficiente, e Nippers à tarde, pois pela manhã, parece sofrer de uma espécie de irritabilidade e azia, o que não ajuda na elaboração do seu trabalho. O chefe é completamente banana, pois, apesar de não estar satisfeitos com seus empregados, arruma diversas desculpas para continuar com eles na equipe.

Então chega a vez da apresentação de Bartleby: um homem pálido, magro e que eficientemente escrevia seus textos no escritório de advocacia do narrador até que, um certo dia, após receber uma tarefa diferente da que fazia, ele simplesmente responde "preferia não fazê-lo".

Essa pequena frase é complemente desconsertante para o patrão:


"Fiquei em silêncio total por um momento, recompondo minhas faculdades atordoadas. Ocorreu-me prontamente que os ouvidos me haviam enganado ou que Bartleby não entendera direito as minhas palavras. Repeti a ordem no tom mais claro e incisivo de que era capaz. Mas ouvi em voz igualmente clara e incisiva a mesma resposta anterior: 

— Preferia não fazê-lo. 

— Preferia não fazê-lo? — repeti, como um eco, levantando-me muito nervoso e atravessando a sala em grandes passadas. 

— O que está querendo dizer com isso? Por acaso ficou louco? Quero que me ajude a conferir esta página. Tome aqui. Estendi-lhe o documento. Mas Bartleby insistiu: 

— Preferia não fazê-lo."


A partir daí, Bartleby prefere não fazer basicamente nenhuma tarefa do trabalho, ao longo da narrativa, isso se estende para outras atividades.


ATENÇÃO! Daqui em diante pode conter spoilers - Pule os dois próximos parágrafos. 

    Já caminhando para o final do texto, Bartleby prefere não sair do escritório, obrigando seu patrão a se mudar (lembra que ele era um bananão? Sempre tenta empurrar os problemas com a barriga). Após ser preso, e já no ato final de loucura, o personagem prefere não mais comer e assim morre de inanição.

    O narrador-patrão nos diz, então, que corre um boato sobre Bartleby e seu antigo emprego, ele trabalhava queimando as cartas mortas, estas são cartas que não encontraram seus destinatários, seja lá por quais motivos. Será que este trabalho monótono e sem esperança, foi a causa do seu declínio mental?

"Ó Bartleby! Ó Humanidade!

                                                             * * *






    É inegável que há um processo de enlouquecimento progressivo do personagem. Em sua "sala" improvisada pelo chefe, apertada, olhando por uma janela sem vida, constantemente, um muro cinza, sem acesso a luz solar, Bartleby é uma metáfora corajosa daquilo que queríamos muito fazer, ou melhor, do que preferiríamos não fazer e acabamos realizando.

    Em trabalhos alienantes e sem propósitos seguimos "preferindo não fazê-lo", mas fazendo. Quem é que pode, no sistema capitalista, simplemente parar?

    Às vezes penso que estamos pior que Bartleby, não podemos nos dar ao luxo de enlouquecermos, não podemos adoecer. Agora a nova consequência do mundo do trabalho é o Bournout ou a ansiedade e a depressão que, com algumas gramas de qualquer ansiolítico, você pode voltar a ser funcional, mas nunca feliz. 

Como máquina "queimamos" muitas "cartas mortas" no nosso dia a dia. 

De certa forma eu me identifiquei com o conto, principalmente na parte do enlouquecimento, por vezes sinto isso com o meu trabalho, parece não fazer sentido, parece não servir para grandes coisas, mas diferente de Bartleby, mesmo preferindo não fazê-lo, eis que estou aqui, todos os dias, fazendo, olhando para um muro cinza, sem vida e sem luz solar. 


E aí, você já conhecia este conto? Gostou? Deixa sua opinião sobre a resenha.

Comentários

  1. Passei todo o texto pensando "meu Deus isso parece com a minha vida, meu Deus isso me lembra a minha vida" e no último parágrafo vc falou exatamente o mesmo que eu pensei, que se identifica, achei incrível. Passo o dia com essa vontade, de que prefiro não faze-lo, triste demais essa reflexão. Texto perfeito, vc como sempre escreve TAO BEM, é tão gostoso de ler. E que bom que está tendo com o seu trabalho oportunidade de ler livros que provavelmente não chamariam a sua atenção de primeira, acho muito bom unir o útil ao agradável. Continue com os posts <33

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  2. Eu realmente não tenho condição nenhuma de tempo e de vida pra poder ler mais nada, e poder ler suas resenhas é como poder ler um livro de forma resumida e bem mais rápida. Fico feliz. Continue escrevendo <3

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